*Por Rodrigo Pomba

Maquiavel, no século XVI, já alertava: nada é mais perigoso para um governante do que se cercar apenas de bajuladores. Se trocarmos o “príncipe” de seu livro clássico por um líder de hoje, o aviso continua mais relevante do que nunca.
O gestor que só ouve “a corte” — secretários, diretores, assessores e aliados beneficiados por cargos de confiança — corre o risco de viver numa bolha. Muitos deles – sem generalizar – têm interesse em pintar um quadro sempre cor-de-rosa, mostrando que a cidade estaria caminhando bem, as obras avançam e a população aplaude. No entanto, a realidade de uma cidade não se mede pelo sorriso do assessor nomeado, mas pelo olhar de quem enfrenta fila no posto de saúde, ônibus lotado e buraco na rua.
A verdade é que quem governa precisa ter os olhos voltados para a rua, não apenas para o gabinete. Ouvir apenas os que dependem de seu favor é como dirigir um ônibus olhando só para o painel, sem ver a estrada. Mais cedo ou mais tarde, o choque com a realidade será inevitável — e doloroso.
O político que acredita somente no elogio daqueles que lhe devem favores se engana, e engana mal. A população percebe rápido quando o governante vive mais de tapinha nas costas do que da verdade. E quando essa percepção se espalha, nem mesmo uma propaganda milionária consegue segurar a insatisfação.
Entre o adulador e o puxa-saco, a diferença é apenas de embalagem. O adulador é o bajulador de luxo, que fala com palavras bonitas e disfarça a submissão em forma de conselho “técnico”. Já o puxa-saco é o modelo popular: bate palma para qualquer coisa, transforma buraco tapado em obra faraônica e ri até da piada sem graça do chefe. Um finge sofisticação, o outro escancara servilismo. No fim, ambos servem para a mesma coisa: enganar o governante e engordar o próprio bolso.
Em tempos de redes sociais e opinião pública instantânea, um governante que se ilude com elogios internos corre o risco de ser surpreendido pela insatisfação externa. Quando o povo percebe que seu líder não enxerga os problemas reais, não há marketing que dê conta de reverter a situação.
Isso não significa abrir mão da autoridade ou deixar que qualquer um dite os rumos da cidade. Maquiavel sugeria um equilíbrio: ter ao lado algumas vozes francas e confiáveis, capazes de dizer a verdade sem medo, mas em número limitado e sob disciplina. Não é conversa de bar, é conselho estratégico.
Caro governante, desconfie do aplauso fácil dos que têm algo a ganhar com sua boa vontade. A verdadeira popularidade vem do olhar direto para o povo e da coragem de encarar a realidade, por mais incômoda que ela seja.
*Rodrigo Elias Pinto é advogado, com pós-graduação em Direito Público, Gestão Pública, Contabilidade Pública e Responsabilidade Fiscal, Comunicação Eleitoral e Marketing Político, Direito do Consumidor e Direito Civil e Processo Civil. Foi vereador em Anhembi por quatro mandatos e, por duas vezes, presidente da Câmara Municipal.