*Por João Tomé

No pequeno vilarejo de pescadores chamado Vila Serena, vivia um homem chamado Elias. Ele era conhecido por ser um exímio construtor de barcos. Nenhuma embarcação feita por suas mãos jamais afundara até que um dia, o seu próprio barco quase o levou ao fundo do mar.
Elias passava por tempos difíceis. Perdera a esposa há alguns anos e, desde então, carregava no coração uma tristeza silenciosa. Por fora, era o mesmo homem forte e gentil; por dentro, um mar revolto.
Certa manhã, ao partir para mais uma pescaria, o mar parecia calmo. Mas à medida que avançava, o barco começou a balançar estranhamente. Elias verificou as velas, o leme, o vento tudo estava certo. Então notou: um pequeno furo na parte interna da embarcação deixava entrar água, pouco a pouco.
Ele tentou ignorar. Pensou: “É só um pouquinho, não vai afundar.” Mas, quanto mais tempo passava, mais o barco se enchia. Elias lutava para escoar a água, até perceber que o perigo não vinha do mar ao redor… vinha de dentro.
Enquanto se esforçava para manter-se à tona, uma frase que sua esposa costumava dizer ecoou em sua mente:
“Elias, a água que afunda o barco não é a de fora… é a de dentro.”
Naquele momento, ele entendeu. Aquele buraco no barco era como a tristeza que ele guardava no coração pequena, silenciosa, mas constante. Enquanto não cuidasse dela, seria sempre arrastado para o fundo.
Elias levou o barco de volta à margem. Consertou o furo com paciência e, mais importante, começou a consertar o que havia dentro de si. Passou a conversar com os amigos, a voltar à igreja, a rir novamente.
Com o tempo, o mar continuou o mesmo com ondas, ventos e tempestades, mas Elias aprendeu que o perigo verdadeiro nunca foi o que vinha de fora. Era o que ele deixava entrar e permanecer dentro.
Desde então, quando alguém reclamava das dificuldades da vida, ele sorria e dizia:
“Lembre-se: a água que afunda o barco, é a de dentro”…
“Abandou-me a mim, fonte de água viva, e para si preferiu cavar cisternas, cisternas defeituosas que não retêm a água.”
Jeremias 2:13