A morte do ex-prefeito de Anhembi, Ruy Ferreira de Souza, ocorrida em novembro de 2020 em uma clínica terapêutica no interior paulista, continua produzindo desdobramentos judiciais e políticos. Uma ação penal em tramitação na Justiça aponta que a internação do ex-chefe do Executivo, poucos dias antes de sua morte, pode ter ocorrido sem respaldo legal, levando o Ministério Público a denunciar pessoas próximas à vítima, entre elas a filha, Rafaela Souza de Góis, e a esposa, Sônia Regina de Almeida Souza.

De acordo com a denúncia apresentada no processo nº 1500768-72.2020.8.26.0575, o ex-prefeito teria sido retirado de Anhembi contra sua vontade e levado para uma clínica de tratamento em São José do Rio Pardo, onde permaneceu internado por aproximadamente cinco dias.

Internação organizada pela família

Segundo o Ministério Público, a internação foi previamente organizada por familiares. A acusação sustenta que Sônia Regina de Almeida Souza, esposa de Ruy, teria firmado contrato com o Centro Terapêutico Renascendo para a Vida no dia 7 de novembro de 2020, prevendo pagamento mensal de cerca de R$ 3.500,00, com duração inicial estimada de seis meses.

Já Rafaela Souza de Góis, filha do ex-prefeito, é apontada na denúncia como responsável por intermediar contatos com responsáveis pela clínica e colaborar na organização da internação.
Conforme relatado nos autos, funcionários ligados à instituição teriam participado da abordagem e do transporte do ex-prefeito até o local.

Acusação de sequestro e cárcere privado

Para o Ministério Público, a forma como ocorreu a internação pode configurar crime de sequestro e cárcere privado, previsto no artigo 148 do Código Penal.

A promotoria sustenta que a privação de liberdade teria ocorrido sem qualquer base jurídica, uma vez que, no momento da internação:

  • não havia interdição judicial da vítima;
  • não existia curador legal nomeado;
  • não havia laudo médico recomendando internação involuntária;
  • tampouco havia autorização judicial para a medida.

Pela legislação brasileira, internações involuntárias exigem requisitos técnicos e médicos específicos, além de comunicação formal às autoridades competentes.

Cinco dias na clínica

De acordo com o processo, Ruy permaneceu internado entre 8 e 13 de novembro de 2020. Durante esse período, relatos reunidos pela investigação indicam que ele teria manifestado o desejo de deixar a clínica, o que não teria ocorrido.

Na manhã de 13 de novembro de 2020, o ex-prefeito foi encontrado morto em seu quarto.

Morte registrada como suicídio

Laudo do Instituto Médico Legal apontou que a causa da morte foi asfixia mecânica por enforcamento, utilizando fronhas de travesseiro.

O caso foi inicialmente registrado como suicídio pela Polícia Civil. Posteriormente, a investigação passou a analisar também as circunstâncias da internação e da privação de liberdade que antecederam a morte.

Situação da clínica

Outro ponto citado na denúncia é a situação do Centro Terapêutico Renascendo para a Vida, onde ocorreu a internação. Segundo o Ministério Público, o estabelecimento foi posteriormente alvo de investigações e denúncias relacionadas a irregularidades administrativas e relatos de maus-tratos a internos.

Essas circunstâncias foram consideradas relevantes na análise da promotoria sobre o caso.

Testemunhas e repercussão política

Na resposta à acusação apresentada à Justiça, as rés Rafaela Souza de Góis e Sônia Regina de Almeida Souza também indicaram um conjunto de testemunhas que deverão ser ouvidas durante a fase de instrução do processo. Entre os nomes arrolados pela defesa estão Selma Aparecida de Oliveira, Elizamara Gomes da Silva, Tatiane Janaina de Almeida França, Joaquim Felipe Batista Filho, o atual prefeito de Anhembi, Jairo de Góis, e o ex-prefeito Lindeval Augusto Motta.

A presença de Motta na lista chama atenção no cenário político local, uma vez que ele foi adversário direto de Jairo de Góis nas últimas eleições municipais. O fato de ambos figurarem como testemunhas em favor da defesa de Rafaela — esposa do atual prefeito — acrescenta um elemento político ao processo, que já desperta repercussão na cidade diante das circunstâncias que cercam a morte do ex-prefeito Ruy Ferreira de Souza.

O ex-prefeito Lindeval Augusto Motta, o Motinha, aparece como uma das testemunhas no processo.

Processo segue em tramitação

A Justiça recebeu a denúncia apresentada pelo Ministério Público ao entender que existem indícios suficientes para abertura da ação penal. Com isso, os acusados passaram à condição de réus no processo, que ainda está em fase de instrução.

Nessa etapa serão analisados depoimentos, provas documentais e perícias antes da decisão final sobre eventual responsabilidade criminal.
Especialistas ressaltam que o recebimento da denúncia não significa condenação, mas apenas que há elementos iniciais que justificam o prosseguimento do processo judicial.