*Por Rodrigo Pomba

Hoje, gostaria de trazer para nossa reflexão um assunto que, por diversas vezes, fui desafiado a confrontar ao longo dos meus 45 anos de vida — e acredito que muitos dos meus leitores também. Alguma vez, diante de uma situação em que você verificou uma injustiça sendo cometida, ou mesmo em que algo poderia ser realizado de forma mais eficaz e eficiente em virtude dos avanços da ciência e da tecnologia, recebeu como resposta direta: “Mas sempre foi assim!”
Em qualquer cidade, aprendemos cedo a conviver com problemas cotidianos: buracos que se multiplicam nas ruas, iluminação precária em ruas inteiras, longas esperas em postos de saúde, transporte público de qualidade duvidosa, estradas rurais malconservadas, entre vários outros problemas. O mais curioso, porém, não é apenas a persistência dessas situações, mas a justificativa que frequentemente as acompanha. Diante de uma pergunta ou reclamação, a resposta de algumas autoridades e servidores costuma ser a mesma: “Sempre foi assim” ou, então, “Na época de Fulano já era assim” — ou algo semelhante.
À primeira vista, parece uma frase neutra. Mas, na prática, funciona como uma barreira contra qualquer transformação. Ela não explica nada e, ao mesmo tempo, explica tudo. Carrega em si um convite à resignação: se sempre foi assim, então não há por que esperar algo diferente.
O problema é que essa frase transforma situações ocasionais — que nasceram de decisões humanas — em fatos “naturais”, quase inevitáveis. É como se as ruas estivessem destinadas a ter buracos, as escolas a não contar com professores suficientes, as unidades de saúde a viver em colapso. Nada mais enganoso. Cada uma dessas realidades resulta de escolhas políticas, de prioridades orçamentárias, de gestões que decidiram agir ou se omitir.
O “sempre foi assim” é também uma forma de “tirar o corpo fora”. Quem o pronuncia retira de si o dever de buscar alternativas, como se o passado justificasse a inércia do presente. É um discurso que protege o poder estabelecido e desencoraja a cidadania ativa.
Mas a própria história mostra o contrário: tudo aquilo que hoje consideramos “normal” já foi, um dia, impensável. Houve um tempo em que a iluminação pública inexistia, em que a coleta de lixo não era organizada, em que o acesso à escola era privilégio de poucos. Só superamos essas condições porque pessoas comuns ousaram dizer que não aceitavam mais viver assim.
Portanto, quando ouvirmos a frase “sempre foi assim”, precisamos respondê-la com outra: “Não precisa continuar sendo assim”. Essa pequena inversão abre espaço para a imaginação, para o planejamento e para a mobilização coletiva. Nenhuma cidade está condenada ao imobilismo.
O futuro se constrói justamente quando temos coragem de romper com a repetição do passado. É responsabilidade de todos — autoridades e cidadãos — recusar a desculpa fácil e exigir soluções concretas. Afinal, se sempre foi assim até hoje, é justamente porque ainda não dissemos, em voz alta o suficiente, que queremos que seja diferente.
E, antes que entendam mal, esse assunto não se restringe à minha querida Anhembi!
*Rodrigo Elias Pinto é advogado, com pós-graduação em Direito Público, Gestão Pública, Contabilidade Pública e Responsabilidade Fiscal, Comunicação Eleitoral e Marketing Político, Direito do Consumidor e Direito Civil e Processo Civil. Foi vereador em Anhembi por quatro mandatos e, por duas vezes, presidente da Câmara Municipal.